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       Orixá Pomba Gira
       By: GabrielSedlak Date: December 16, 2016, 7:33 am
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       [center]Orixá Pomba Gira
       por Rubens Saraceni
       [/center]
       É claro que uma mulher altiva, senhora de si, segura,
       competentíssima no seu campo de atuação, seja ele profissional,
       político, intelectual, artístico ou religioso, impressiona
       positivamente alguns e assusta outros. Agora, se esse imenso
       potencial também aflorar nos aspectos íntimos dos
       relacionamentos homem-mulher, bem, aí elas fogem do controle e
       assustam a maioria como começam a ser estereotipadas como
       levianas, ninfomaníacas etc., não é mesmo? Liberdade com
       cabresto ainda é aceitável em uma sociedade patriarcal e
       machista. Mas, sem um cabresto segurado por mãos masculinas,
       tudo foge do controle e a sociedade desmorona porque não foi
       instituída a partir da igualdade, e sim, da desigualdade.  Uma
       mulher submissa, só acostumada e condicionada a sempre dizer
       “amém”, todos aceitam como amiga, como vizinha, como colega de
       trabalho, como namorada, como esposa, como irmã etc., mas uma
       mulher questionadora, insubmissa, mandona, contestadora,
       independente, personalista etc., nem pensar, não é mesmo?  -
       Pois é! Não seria diferente em se tratando de espíritos e, para
       complicar ainda mais as coisas, com eles incorporando em médiuns
       e trabalhando religiosamente para pessoas com problemas
       gravíssimos de fundo espiritual.  De repente, uma religião
       nascente e espírita se viu diante de manifestações de espíritos
       femininos altivos, independentes, senhoras de si,
       competentíssimas, liberais, provocantes, sensuais, belíssimas,
       fascinantes, desafiadoras, poderosas, dominadoras, mandonas,
       cativantes, encantadoras, cuja forma de apresentação fascinou os
       homens porque elas simbolizavam o tipo de mulher ideal, desde
       que não fosse sua mãe, sua irmã, sua esposa e sua filha, certo?
       Quanto às mulheres, as Pombas-giras da Umbanda simbolizavam tudo
       o que lhes fora negado pela sociedade machista, repressora e
       patriarcal do inicio do século XX no Brasil, onde à mulher
       estava reservado o papel de mãe, irmã, esposa e filha
       comportadíssimas... senão seriam expulsas de casa ou recolhidas
       a um convento.  Mas, com as Pombas-giras de Umbanda não tinha
       jeito, porque ou as deixavam incorporarem em suas médiuns ou
       ninguém mais incorporava e ajudava os necessitados que iam às
       tendas de Umbanda.  Só um ou outro dirigente ousava realizar
       sessões de trabalhos espirituais com as Pombas-giras, e a
       maioria deles preferia fazer “giras fechadas” para a esquerda,
       para não “escandalizar” ninguém e para não atrair para o seu
       centro a polícia e os comentários ferinos sobre as “moças da
       rua”. Só que essa não foi uma boa solução porque as línguas
       ferinas logo começaram a tagarelar e a espalhar que nessas giras
       fechadas rolava de tudo, inclusive sexo entre os seus
       participantes, criando um mal estar muito grande, tanto dentro
       do círculo umbandista quanto fora dele.  E ainda que tais
       fuxicos fossem falsos e maledicentes, não teve mais conserto
       porque o “vaso de cristal” da religiosidade umbandista nascente
       havia se trincado, e as “moças da rua” já haviam sido
       estigmatizadas como espíritos de rameiras que incorporavam em
       médiuns mulheres para fumarem, beberem champanhe, “gargalharem à
       solta”, rebolarem seus quadris, balançarem seus seios de forma
       provocante e para atiçarem nos homens desejos libidinosos e
       inconfessáveis. Para quem não sabe, rameira era o nome dado às
       prostitutas e às “mulheres de programas” do nosso atual século
       XXI.
       O único jeito de amenizar o “prejuízo religioso” que eles haviam
       causado com suas “petulâncias” foi tentar explicar que não era
       nada disso, e sim, que as Pombas-giras eram Exus femininos e,
       como todos sabem, Exu não é flor que se cheire, ainda que seja
       muito competente nos seus trabalhos de auxílio aos necessitados
       de socorros espirituais, certo? Como “mulher de Exu” ou como Exu
       feminino, ainda dava para deixar uma ou outra incorporar na gira
       deles, mas já submissas a eles, que ficaram encarregados de
       zelar pela moral e pelos bons costumes delas...  E aí as giras
       de esquerda foram sendo abertas timidamente e, pouco a pouco e
       paralelamente, a sociedade estava passando por profundas
       transformações sociais, comportamentais e políticas, em que a
       poderosa Igreja Católica estava perdendo poder e cedendo à
       sociedade algumas liberdades religiosas. Quando os militares
       assumiram o poder nos anos 60 do século XX e logo entraram em
       choque com alguns setores do catolicismo arraigados na política,
       então diminui de forma acentuada a intensa perseguição da
       polícia sobre as tendas de Umbanda.  Somando à liberdade
       conseguida no período da ditadura, vieram os movimentos
       feministas que explodiram na América do Norte e na Europa, que
       conseguiram muitas conquistas para as mulheres. A par destes
       acontecimentos, veio a explosão da revolta da juventude, com os
       Beatles e com Woodstock, que mudaram os padrões comportamentais
       dos jovens e as relações entre pais e filhos. Pomba-gira
       assistiu a todos esses acontecimentos, que se passaram nos anos
       1960 e 1970 e, entre um gole de champanhe e uma baforada de
       cigarrilha, dava suas gargalhadas debochadas, e dizia isto:  - É
       isso aí, mesmo! Mais transparência e menos hipocrisia!
       [center] A popularidade de Pomba-gira [/center]
       Com a liberação da mulher, vieram a responsabilidade, os
       direitos e os deveres.  Pomba-gira popularizouse com a expansão
       da Umbanda e dos demais cultos afro-brasileiros nos anos 60 e 70
       do século XX e, em meio à multiplicidade de cultos com ela
       presente em todos, sua força era indiscutível e sue poder foi
       usufruído por todos os que iam se consultar com ela.  Não
       demorou a descobrirem que ela atendia a todos os pedidos,
       inclusive aos de “amarrações para o amor”, para “separação de
       casais” e outros pedidos bem terrenos dos humanos. Como ninguém
       se preocupou em fundamentá-la enquanto Mistério da Criação e
       instrumento repressor da Lei Maior e da Justiça Divina,
       temidíssima justamente em um dos campos mais controvertidos da
       natureza dos seres, que é justamente o da sexualidade, eis que
       não foram poucas as pessoas que foram pedir o mal ao próximo e
       adquiriram terríveis carmas, todos ligados aos relacionamentos
       amorosos ou passionais.  Nada como pedir para as “moças da rua”
       coisas que não seriam muito bem vistas pelo “povo da direita”.
       Assim, Pomba-gira tornou-se a ouvinte e conselheira de muitas
       pessoas com problemas nos seus relacionamentos amorosos,
       procurando atender a maioria das solicitações, fixando em
       definitivo um arquétipo poderoso e acessível a todas as classes
       sociais.  Junto à explosão descontrolada das manifestações de
       Pombas-giras, vieram os males congênitos, que acompanham tudo o
       que é poderoso: os abusos em nome das entidades espirituais,
       tais como os pedidos de joias e perfumes caríssimos; de vestes
       ricas e enfeitadas, de oferendas e mais oferendas caríssimas; de
       assentamentos luxuosos e ostentativos; de cobrança por trabalhos
       realizados por elas, mas recebidos em espécie por encarnados,
       etc.  Pomba-gira também serviu de desculpa para que algumas
       pessoas atribuíssem a ela seus comportamentos no campo da
       sexualidade. Ainda que hoje saibamos que elas são esgotadoras do
       íntimo das pessoas negativadas por causa de decepções e
       frustrações nos campos do amor, no entanto ainda hoje vemos um
       caso ou outro que atribuem à Pombagira o fato de vibrarem
       determinados desejos ou compulsões ligadas ao sexo.  Mas a
       verdade indica-nos exatamente o contrário disso, ou seja, a
       “mulher da rua” atua esgotando o íntimo de pessoas e de
       espíritos vítimas de desequilíbrios emocionais ou conscienciais,
       pois essa é uma de suas muitas funções na Criação.
       
       [center]Pomba-gira O Mistério Desconhecido  [/center]
       As informações que colocamos abaixo foram tiradas de um artigo
       sobre cultura afro-batú, de autoria de Walter Nkosi, publicado
       no Jornal Icapra, edição 22. Por Walter Nkosi, especialista em
       cultura bantú e professor de Kimbundu, a principal língua dessa
       etnia. Cultura Bantu-Brasileira-Ngamba, o guardião: no Brasil é
       conhecido por Ngamba, que significa guardião em idioma bantú, e
       exerce funções semelhantes a Nkomdi.
       Nos Candomblés de Angola e Kongo, também são denominados
       Njila/Nzila ou Pambú Njila, o ‘Senhor Guardião do Caminho’,
       proveniente do idioma kimbundu; pambu (fronteira,
       encruzilhada...), njila (rua, caminho...), ‘o que caminha nas
       ruas, estradas, fronteiras, encruzilhadas...
       As funções atuantes do guardião são atribuídas exclusivamente
       para um Nkisi masculino, não cabendo a mesma para Nkisi
       feminino.  No entanto, é notória a miscigenação nos candomblés
       em geral, onde entidades da Umbanda, conhecidas em tempos
       remotos por ‘povo da rua’ se intitularam erroneamente na
       atualidade como deidade africana, rei e rainha do candomblé,
       Pomba-gira, Legba e entidades exercendo funções masculinas de
       guardião.
       A falta de informação sobre a religião direciona os adeptos a
       práticas religiosas indevidas, propala e contribui para um
       distanciamento cada vez maior do culto tradicional africano.
       Urge maior conhecimento e seriedade nos cultos.
       Aqui, reproduzimos parte do artigo para que nossos leitores
       saibam de onde se originou o nome “Pombagira” ou “pombogira”
       usados atualmente na Umbanda e nos demais cultos
       afro-brasileiros; é uma corruptela de Pambú Njila, o Guardião
       dos Caminhos e das Encruzilhadas no culto de nação Bantu, da
       língua Kimbundu.  Eu já li em outro autor, isso há mais de 30
       anos, que o nome “Pomba-gira” derivava de Bombogira, entidade do
       culto angola que é muito oferendada nos caminhos e nas
       encruzilhadas, muito temida e respeitada na região africana onde
       é cultuada.  Há outras informações que nos revelam que Pombogira
       ou Pomba-gira ou Bombogira é derivada das “yamins” cultuadas na
       sociedade matriarcal secreta conhecida como “gelede”. Se são cem
       por cento corretas ou só parcialmente, isso fica a critério de
       cada um, porque o fato é que existem, sim, espíritos femininos
       que incorporam em suas médiuns e apresentam-se como Pombas-giras
       na Umbanda, assim como nos demais cultos afro-brasileiros.  Suas
       manifestações, informam-nos os mentores espirituais, são
       anteriores à Umbanda e já aconteciam esporadicamente nas
       “macumbas” do Rio de Janeiro, bem descritas no livro As
       Religiões do Rio, de autoria de João do Rio, livro esse
       reeditado em 2006, mas onde não há uma descrição detalhada dos
       nomes das entidades, e sim, apenas algumas informações,
       valiosíssimas, ainda que parciais.  Muitos autores umbandistas
       atribuíram-lhe o grau de Exu feminino em razão da falta de
       informações sobre essa entidade e do fato de manifestar-se nas
       linhas da esquerda, ocupadas por Exu e por Exu Mirim. Inclusive,
       alguns a descreveram como esposa de Exu e mãe de Exu Mirim. Não
       devemos creditar essas interpretações, se errôneas, a ninguém,
       porque todos fomos vítimas da falta de informação e da
       desinformação geral, que geraram toda uma forma anômala de
       descrever as desconhecidas manifestações de entidades, que
       também nada revelaram sobre seus fundamentos divinos, e deixaram
       para a imaginação e a criatividade de cada um os conceitos sobre
       eles.  Se agora temos espíritos mensageiros que estão chegando
       até nós para que fundamentemos as incorporações umbandistas nas
       divindades-mistérios, então só temos de agradecer pelo que,
       finalmente, nos está sendo concedido.
       Pai Benedito de Aruanda, o espírito mensageiro que está nos
       trazendo a fundamentação dos mistérios que se manifestam na
       Umbanda, cobra-nos um rigoroso respeito pelos umbandistas que
       semearam a Umbanda, o culto aos Orixás, as linhas de trabalhos
       espirituais, a forma do culto umbandista e os nomes
       aportuguesados dos nomes africanos que nos chegaram, trazidos
       pelos nossos antepassados vindos da África, de toda ela, assim
       como aos nomes aportuguesados pertencentes ao tronco linguístico
       tupi-guarani. (...) O Mistério Pomba-gira abriu-se por inteiro
       na Umbanda e tanto pode ser esse quanto outro nome para
       identificá-lo porque, enquanto Orixá, seu verdadeiro nome nunca
       foi revelado na Teogonia Nagô; ele se encontra oculto entre os
       200 Orixás desconhecidos, porque a Pomba-gira não foi humanizada
       no tempo como foram Exu, Oxalá, Iemanjá e todos os outros Orixás
       do panteão yorubano, muitos deles desconhecidos pelos
       umbandistas e por boa parte dos seguidores de outros cultos
       afros.  (...) Portanto, Pambu Njila para o guardião Bantu
       semelhante ao Exu Nagô e Pomba-gira para a guardiã umbandista,
       Rainha das Encruzilhadas da Vida e Senhora dos Caminhos à
       esquerda dos Orixás.  Pomba é um pássaro usado no passado como
       correio, “os pombos correios”. Gira é movimento, caminhada,
       deslocamento, volta, giro, etc. Portanto, interpretando seu nome
       genuinamente português, Pomba-gira significa mensageira dos
       caminhos à esquerda, trilhados por todos os que se desviaram dos
       seus originais caminhos evolutivos e que se perderam nos desvios
       e desvãos da vida.  Pomba-gira, genuinamente brasileira e
       umbandista, está aí para acolher a todos os que se encontram
       perdidos nos caminhos sombrios da vida... ou da ausência dela,
       certo?
       Fonte: “Orixá Pomba gira” - Rubens Saraceni, Editora Madras.
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